Avanço tecnológico, retrocesso social: crise hídrica crônica persiste e Acajutiba segue sem ações emergenciais

Apesar do avanço tecnológico anunciado pela Embasa com a implantação de um Centro de Controle Operacional (CCO) em Alagoinhas, a população de Acajutiba continua convivendo com a falta de água e sem ações emergenciais efetivas, como o fornecimento regular por carros-pipa. O contraste entre modernização da gestão e a realidade enfrentada pelos moradores evidencia um retrocesso social em uma crise hídrica que se arrasta há mais de uma década na região.
Nos últimos meses, Acajutiba, Aporá e Esplanada, municípios atendidos por um sistema integrado de abastecimento, voltaram a sofrer com interrupções frequentes no fornecimento. Em dezembro de 2025, foram registradas sucessivas suspensões do serviço, atribuídas a rompimentos de adutoras e falhas operacionais.

Zona Rural de Esplanada

Enquanto Esplanada passou a contar com carros-pipa e equipes de apoio em localidades como Malhadas e São José, Acajutiba segue sem informações claras sobre medidas emergenciais equivalentes, o que tem gerado revolta e sensação de abandono.
O problema, no entanto, não é novo. Em maio de 2013, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) acionou a Justiça contra a Embasa devido às constantes falhas no abastecimento em Acajutiba. À época, o MP cobrou o cumprimento de um acordo firmado em 2010, que previa a regularização do serviço e a duplicação da rede de distribuição, chegando a pedir o bloqueio de até R$ 500 mil para garantir as obras. Segundo o MP, o município chegou a ficar até 20 dias sem água, afetando inclusive serviços públicos essenciais. Mais de dez anos depois, o cenário pouco mudou.
Do ponto de vista legal, a responsabilidade pela prestação do serviço e pelas ações emergenciais, incluindo o uso de carros-pipa em situações de colapso no abastecimento, é da Embasa, concessionária estadual de saneamento. O apoio dos municípios pode ocorrer de forma complementar, especialmente por meio da Defesa Civil, mas a obrigação primária de garantir o acesso à água potável — ainda que de forma provisória — é da concessionária, conforme os contratos de concessão e a legislação do saneamento básico.
Como resposta estrutural, a Embasa inaugurou, em 18 de dezembro de 2025, o Centro de Controle Operacional (CCO) na unidade regional de Alagoinhas. A central passou a monitorar em tempo real os sistemas de abastecimento de Pojuca, Acajutiba, Aporá, Esplanada, Araci, Tucano, Ribeira do Pombal, Nova Soure e Rio Real, utilizando sensores instalados em adutoras, reservatórios, estações de bombeamento e pontos da rede distribuidora. As informações são consolidadas em uma plataforma digital que permite identificar falhas operacionais com maior rapidez.
Além da operação hidráulica e eletromecânica, o CCO também monitora câmeras de vigilância em 19 unidades operacionais, com o objetivo de agilizar respostas a casos de vandalismo, furtos ou invasões. Segundo o gerente regional da Embasa, Júlio César da Silva, o monitoramento remoto representa um avanço na eficiência operacional e deve ser expandido para outros sistemas.
Apesar disso, moradores e lideranças locais avaliam que a tecnologia, por si só, não resolve o problema central, que é a infraestrutura defasada. A ausência de ações emergenciais visíveis em Acajutiba, somada à repetição de falhas no sistema, reforça a necessidade de investimentos estruturais, como duplicação de adutoras, modernização das estações de bombeamento e planos de contingência claros e igualitários.
A crise hídrica que atinge Acajutiba há mais de uma década volta a expor um dilema recorrente na região: avanços técnicos coexistem com a falta de respostas práticas à população, tornando inevitável a cobrança por maior transparência, pressão institucional e, se necessário, nova atuação do Ministério Público, para que o direito básico ao acesso à água deixe de ser tratado como exceção.

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