Ensino lúdico: projeto baiano usa capoeira como ferramenta educacional

Fonte: Correio24horas

Iniciativa está com vagas abertas para jovens que residem em Camaçari

“Amanhã é dia santo, um e dois: três. Dia do povo de Deus, três e três: seis. Quem tem roupa vai na missa, seis e três: nove. Quem nao tem faz como eu, nove e três: doze”. É com essa cantiga que os alunos aprendem matemática dentro do projeto Capoeiragem Mirim, que já está com 100 vagas abertas para jovens que residem em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), e estudam em escolas públicas do estado. O curso, com duração de 10 meses, usa a capoeira como ferramenta de educação e transformação social, levando conhecimento, não só em matérias escolares, mas também em cultura afrodescente, para crianças e adolescentes através da ludicidade.

O Centro de Treinamento e Estudos da Capoeiragem –  escola presente em cinco estados do Brasil e que possui centros de treinamento e estudos na Alemanha, Bélgica, Suíça e Itália – lançou o Capoeiragem Mirim com acompanhamento pedagógico, conteúdo programático desenvolvido por professoras e assistência social para as famílias em 2019.  Para o mestre Balão, um dos fundadores e atual presidente do instituto, a iniciativa é muito importante porque as crianças e adolescentes que participam começam a incorporar a cultura e aprendizado na vida delas. “Somos representados pela filosofia africana Ubuntu: ‘eu sou porque nós somos’, ou seja, não jogamos contra, jogamos com o outro. A capoeira não impõe, não é violenta, é socializante e transformadora”, declara.

(Foto: divulgação)  

A capoeira foi criada no século XVII pelo povo escravizado e hoje é considerada um dos maiores símbolos da cultura brasileira. Mestre Balão expõe que a arte marcial tem melodias e instrumentos próprios: “O berimbau se tornou símbolo da Bahia e do Brasil como um todo, a capoeira é vista pelo mundo afora e está presente em pelo menos 170 países”. O projeto Capoeiragem Mirim já está em sua segunda edição e conta com o patrocínio da Braskem e do Governo do Estado, por meio do Fazcultura, da Secretaria de Cultura e da Secretaria da Fazenda.

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O curso está fundamentado em três pilares: o da ludicidade, utilizando jogos, músicas e brincadeiras em roda; da transversalidade, quando a criança aprende sobre português, história, matemática e outras disciplinas por meio da capoeira; e da realidade, ao compartilhar saberes que estão conectados e acessíveis ao universo que o jovem está inserido. “Nós tratamos da realidade da Bahia, fortalecemos o vínculo com a nossa terra, proporcionando pra elas, que são crianças carentes e a maioria negras, elevação da autoestima, através das raízes da capoeira, mostrando os valores dos nossos afrodescendentes”, pontua mestre Balão, que possui 37 anos de trajetória no universo da capoeira.

Os dois filhos da diarista Edjane Santos, de 48 anos, Rayane, 11, e Marcos Vinicius, 14, participaram do projeto em 2019 e vão se inscrever novamente este ano. “Eu gostei que eles ensinavam as crianças a ler e minha filha aprendeu com eles”, diz. A mãe afirma estar ansiosa para que “comece tudo de novo”, principalmente pela menina, que se identificou muito com a arte marcial. “Para mim, esse projeto foi a melhor coisa que teve por aqui pra gente, porque essas coisas aqui são difíceis, a maioria é pago e eu não tenho condições pra isso”, completou a mulher.

Rayane realça que uma das coisas que mais gostou no projeto Capoeiragem Mirim foi o fato dela ter aprendido muito e ter até pulado de ano na escola por ter ficado avançada. “Eu gostava dos professores, eles são legais e não gostam de reclamar. Eu tenho sorte porque nunca aprontava, sempre ajudava eles nas atividades”, detalha. A menina ainda afirma que pretende ser professora da arte marcial no futuro.

Marcos Vinicius também comenta que um de seus sonhos é se profissionalizar e continuar lutando capoeira mesmo quando for adulto. “O que eu mais aprendi no projeto é que o nosso forte não é para usar em briga”, relata o adolescente.

O núcleo do Capoeiragem Mirim 2022 fica no bairro Phoc III, em Camaçari. As inscrições são feitas presencialmente até 16 de fevereiro, às segundas e quartas, das 14h às 17h, no Centro de Artes e Esportes Unificados (Ceus), localizado na Praça de Esporte e Cultura (PEC). Para realizar a matrícula, é preciso fazer um cadastro familiar levando documento de identificação com foto do responsável e do participante, além de comprovante de matrícula em escola pública.  Com oito turmas ao todo, as aulas do programa acontecerão às segundas e quartas, no turno oposto ao horário escolar da criança e adolescente. Já às sextas, acontecem eventos, reuniões pedagógicas, reuniões com as famílias dos participantes, dentre outras ações.